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quinta-feira, 10 de março de 2011

Mimosa boca errante


Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.


Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?


Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lembente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-te, e, na morte, de viver-me.


Já sei a eternidade: é puro orgasmo.



Carlos Drummond de Andrade

4 comentários:

{Λїtą}_ŞT disse...

Bela a escolha do poema e perfeita a combinação de imagens, sr.
Parabéns pelo bom gosto de sempre.
Abraços.

{Λїtą}_ŞT

Lord Bondage disse...

Obrigado {Vita}_ST

Beijos e saudações ao Senhor da Torrre.

{Júlia}Domador disse...

Eita Lord

confesso que já sentia saudades de visitar essa tua morada, com imagens e Drummond nesse poder de inspiração que lhe era peculiar. Como sempre bom gosto e excelencia em seus posts, torna o retorno aqui garantido...rsrs

bjus

_lua_ disse...

Drummond sempre será um belissimo escritor.

Ótimas imagens para ilustrar.

bjs da lua.

=)